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«Possivelmente estarás a dormir quando te escrevo esta carta. Falei contigo hoje por duas vezes e por duas vezes tive a sensação de perceber tudo aquilo que eu quero é algo muito parecido contigo. Não sei se és tu, mas parece-me que a haver alguém com as tuas características, é essa pessoa que eu quero. Quero alguém como tu e desde que te conheci que a procuro de forma incansável, na esperança que alguém se assemelhe a ti, mas que não sejas tu, de forma que sejamos só amigos como tu pretendes. Sejamos claros, a Remax em vez de vender andares e colocar outdoors pelas cidades inteiras à procura de compradores de cimento e tijolos e cozinhas modernas, devia dedicar-se ao amor e ajudar-me a procurar alguém como tu, de forma que continuasses a tua vida sem que alguma vez percebesses que é a ti que eu quero e procuro. A Remax, a Century 21, a Era, essas imobiliárias de betão, deveriam ajudar-me a procurar alguém igual a ti, em vez de um T2 com vista para o mar, de jardins sustentáveis, condomínios fechados e o costume. O melhor vendedor da Remax, que se chama Nuno Gomes, se fosse mesmo o melhor da Europa como dizem que é, poderia ajudar-me nisto. A procurar alguém igual a ti, colocando em todos os outdoors de Lisboa que têm para o efeito, um anúncio em letras grandes à qual se juntaria a tua foto que diria “Procura-se mulherigual a esta”. E posto isto deixaria o seu habitual número para que lhe chegassem propostas e em todas elas eu, com tudo o que tinha, hipotecava o que houvessem para que nenhuma tivesse capacidade para ser superior à minha. Procuro alguém igual a ti, peço-te ajuda para isso, não quero interromper a tua vida nem muda-la, nem sequer te fazer perder muito tempo desde que me garantas que me arranjas alguém igual a ti.

Mas tem que ser igual, exactamente igual. Promete-me isso, quero essas provocações parvas, quero esse teu voluntarismo desinteressado, esses palavrões na ponta da língua, mas não te quero a ti. Tu não tens mais que fazer, esta carta é um pedido de ajuda por isso, quero isso sim, alguém como tu, alguém que nunca a Remax saberá encontrar.»

 

Não és tu, Sou eu de Fernando Alvim In metro (5 Agosto de 2011)

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